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Por que a matemática é mais difícil para algumas crianças? Exames de imagem mostram padrões de atividade cerebral em crianças com dificuldade em matemática

Nem toda dificuldade em matemática pode ser explicada por falta de esforço, desatenção ou pouco treino. Um estudo divulgado pela Science News e pela Stanford Medicine mostrou que algumas crianças com dificuldade de aprendizagem em matemática apresentam diferenças mais marcantes quando lidam com símbolos numéricos do que quando comparam quantidades representadas por pontos. O trabalho foi publicado em 9 de fevereiro de 2026 no Journal of Neuroscience.  

Essa diferença é importante porque muda a forma como a escola interpreta o problema. Em vez de concluir rapidamente que o aluno “não sabe matemática”, os achados sugerem que, em alguns casos, o obstáculo pode estar no processamento do número como símbolo e na capacidade de ajustar a estratégia depois do erro.  

O que os pesquisadores investigaram

O estudo analisou dados de 87 crianças do 2º e 3º ano. Desse total, 34 foram classificadas com dificuldade de aprendizagem em matemática, com base em desempenho igual ou inferior ao percentil 25 em um teste padronizado de fluência matemática, enquanto 53 apresentaram habilidades matemáticas típicas.  

Durante a pesquisa, as crianças realizavam uma tarefa simples: observar dois estímulos e indicar qual representava a maior quantidade. Em algumas tentativas, a comparação era feita com algarismos arábicos; em outras, com grupos de pontos. Ao mesmo tempo, os pesquisadores registravam a atividade cerebral por ressonância magnética funcional e aplicavam um modelo computacional para analisar padrões sutis de comportamento, como cautela na resposta e mudança de estratégia após erros.  

O achado principal: símbolos numéricos parecem pesar mais

Os pesquisadores observaram que, nas tarefas com números escritos, as crianças com dificuldade de aprendizagem em matemática tendiam a responder com menos cautela e a ajustar menos o comportamento depois de errar do que as crianças com habilidades matemáticas típicas.  

Mas, quando a tarefa usava pontos para representar quantidade, essas diferenças diminuíam bastante ou desapareciam. Segundo a Stanford Medicine, em problemas apresentados com grupos de pontos, as crianças com dificuldade em matemática chegaram a demonstrar maior cautela após o erro. 

Isso reforça uma hipótese relevante para a prática educacional: em muitos casos, a criança pode compreender a ideia de quantidade de forma mais preservada, mas encontrar mais barreiras quando precisa trabalhar com a representação simbólica do número.  

O que o cérebro mostrou

As imagens cerebrais indicaram menor atividade, nas tarefas com símbolos numéricos, em regiões associadas à função executiva, à atenção, ao controle de impulsos e ao monitoramento de erros. Entre elas, destacaram-se o giro frontal médio e o córtex cingulado anterior.  

Segundo os especialistas, isso sugere que as dificuldades em matemática não devem ser atribuídas a uma única “área da matemática” no cérebro. O quadro parece envolver redes mais amplas, ligadas ao processamento de informações, à autorregulação e à capacidade de perceber erros e ajustar a resposta.  

O que isso significa para professores e gestores escolares

Para a escola, esse estudo traz uma mensagem importantíssima: repetir exercícios do mesmo modo nem sempre resolve. Uma resposta pedagógica mais promissora inclui ensino mais explícito, ou seja, com o uso de apoios visuais, progressão em etapas, tempo de processamento e feedback que ajude o aluno a perceber como está pensando e onde precisa ajustar a estratégia. Essa leitura pedagógica é consistente com a conclusão dos pesquisadores de que futuras intervenções devem mirar não apenas o senso numérico, mas também processos metacognitivos e de monitoramento de desempenho.  

Isso também exige cuidado com os rótulos. Quando a dificuldade do aluno é lida apenas como desinteresse, preguiça ou falta de esforço, a escola pode aumentar frustração, ansiedade e sensação de fracasso. A Stanford Medicine destaca que dificuldades persistentes em matemática podem comprometer motivação e interesse, criando um efeito em cascata sobre a aprendizagem futura.  

Dificuldade de aprendizagem em matemática não é sinônimo de incapacidade

O próprio estudo adota um critério amplo para “dificuldade de aprendizagem em matemática” e distingue esse grupo de uma forma mais estrita, chamada discalculia, que afeta algo entre 3% e 7% da população, segundo a Stanford Medicine. Isso é importante porque mostra que nem toda criança com dificuldade em matemática se enquadra automaticamente em um diagnóstico específico.  

Além disso, os autores ressaltam que a análise é exploratória e não estabelece causa e efeito entre a atividade cerebral observada e as habilidades matemáticas das crianças. O valor do estudo está em ampliar a compreensão do problema e abrir caminhos para intervenções mais refinadas, não em transformar neuroimagem em ferramenta diagnóstica escolar.  

O que a escola pode fazer na prática

A principal lição para professores, coordenadores e gestores é: diante de um aluno que trava na matemática, vale perguntar menos “por que ele não aprende?” e mais “como estamos ensinando, corrigindo e apoiando?”. O estudo aponta que o modo de apresentação da informação e o suporte à autorregulação podem fazer diferença real no desempenho.  

Uma escola comprometida com inclusão precisa olhar para além do resultado final. Precisa observar o processo, identificar barreiras cognitivas e simbólicas, qualificar a mediação pedagógica e construir estratégias que permitam ao aluno aprender com mais segurança e menos julgamento. Essa é uma inferência educacional consistente com os achados sobre processamento simbólico, monitoramento de erros e necessidade de intervenções metacognitivas.  

Conclusão

O novo estudo ajuda a desmontar uma visão simplista sobre dificuldades em matemática. Para algumas crianças, o problema pode não estar apenas na noção de quantidade, mas na relação com os símbolos numéricos e na capacidade de ajustar o próprio raciocínio após o erro. Quando a escola entende isso, deixa de apenas cobrar mais e passa a ensinar melhor.  

Se a sua escola quer fortalecer práticas de inclusão, mediação pedagógica e apoio a estudantes com diferentes perfis de aprendizagem, a ADAPTE pode ajudar sua equipe a transformar evidência em prática.

Fontes: reportagem de Lily Burton, publicada na Science News em 27 de fevereiro de 2026, e release da Stanford Medicine sobre o estudo publicado no Journal of Neuroscience.